Tudo é divino

Nos primeiros dias, tudo era só saudade. Dor e saudade. Eu tinha aquele peso no peito, uma certa claustrofobia. Suspirava sem perceber, chorava sem fazer esforço. Aí acordei, e percebi que era um sonho. O sonho que você contou, eu já nem lembro. O sonho que sonhei virou pesadelo nas outras noites. De tanto aparecer, ficou familiar.
Não viro mais o rosto, mas muitas vezes te olho como se não mais te desejasse. Gosto de fazer esse teste. Confundo tudo e pergunto mil vezes a mim mesma, como será que a gente sabe, depois de tanto tempo? É tanto tempo, né? As coisas espalhadas, a casa fora de validade, minhas oscilações de humor, sua arrogância. Claro que somos espelho um do outro, não precisamos de teorias astrológicas para sabermos disso. Isso é simples como a vida. Nossos reflexos, nossa falta de controle sobre o que somos sendo submetida à dominação silenciosa do mundo.
Enquanto olho pela janela do ônibus, sinto uma agonia chata nas pernas, uma vontade de sair correndo, pular fora, arrumar uma maneira de chegar mais rápido. Aonde, você sabe aonde? Cansei de esperar. 

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