Máquina

Folga de 4 dias. Parece muito, mas não é tanto assim, eu garanto.  Não entendo essa gente que diz estar louco para voltar a trabalhar. Que que isso. Vazio existencial?

Tem muita coisa pra se fazer na minha vida, ficar à toa é uma delas. Fora cozinhar, algo que não se faz em dias de rotina atribulada. Cozinhar mesmo, cortar cebola com calma. Marinar a carne. Limpar tudo depois.

Outra coisa é ler com calma, voltando página, dobrando orelha da folha. Parar para pensar na linha lida, refletir e voltar para a trama. Tem outro verbo também, para dias de ócio, que é amar. Ficar à toa é bom para amar. Entrelaçar pés, beliscar costas, deitar no peito, olhar pro teto entre outras coisas boas do tédio apaixonado.

Acordar com hora marcada é a lei propagada para o sucesso. Toda pessoa bem sucedida que se preze diz que ama acordar cedo, que o dia fica mais produtivo. Produtividade para mim soa como aquelas máquinas de ponto antigas, aquelas que furavam o cartão. Não que eu reconheça uma delas, nunca bati ponto. Só sei que estou longe de ser máquina.

O dia amanheceu com chuva, aqui no estrangeiro. Acordei com disposição antes da hora normal. Acordei para malhar. Rotina.

Em volta da praça, uma mulher andava, falando sozinha, esfregando as mãos. A loucura está mais perto do que a gente imagina e eu tenho uma profunda compaixão pelas pessoas que se desconectaram.

Estava respondendo um email de trabalho, tentando consertar um erro da minha própria desconexão. Assinei. Antes de enviar, meu olho bateu na assinatura do email, não reconhecendo o nome assinado. Parece o que é.

Há de se tentar ficar mais atento para conseguir manter a sanidade. E amar. Principalmente o que se faz todo dia. Mas isso é outra história.

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