Laranjeira’s Blues

Hoje eu estou tão dispersa, no entanto, o céu está muito azul para que eu não preste atenção.

O vento, gentil, respeitou minha saia mole e eu segui sem medo pela rua das Laranjeiras entre crianças que voltavam da natação, moradores de rua, jovens mães empurrando carrinhos e seus bebês.

Para sentar e começar, valorizo meus rituais. Bebo café, lavo as mãos, as hidrato, olho rápido para a mesa e aconchego celular, lápis e caneta. Não penso muito, não tem o que pensar. Faço um acordo comigo mesma de me entregar ao que quer que seja.

O dia passa mais rápido, não sei se gosto ou se desgosto. Finjo que acho prazeroso e divulgo isso para os amigos. Penso em voz alta que assim é melhor. Justifico que é um investimento, o salário ser mais baixo que o do emprego anterior. É um investimento. Eu insisto em acreditar.

Choro escondida com a conta da TV por assinatura, choro um pouco mais maldizendo meu destino e minhas escolhas sempre atrasadas. Escondida.

Programo o figurino da viagem para o final de semana que vem, fico ansiosa com a depilação que eu tenho que fazer e com a pele, a pele que não disfarça.

A pele não disfarça.

E daí se ando um pouco triste?

O céu está muito azul e isso é que importa, meu bem.