In memoriam

Esses dias eu pensei muito em Vovó Leonor, deve ser porque ela morreu nessa época, no mesmo mês que ela fazia aniversário. Ela morreu Câncer e nasceu Leão. Vendo por esse lado, tem tudo a ver com a história dela. Eu era muito nova, porém lembro perfeitamente da imagem que eu fazia dela, uma senhora muito chique, delicada, de sorriso fácil, de humor refinado. Resignada, mas só por culpa da sua geração.

Vovó era muito vaidosa, sempre de batom vermelho Chanel, com pérolas e coque no cabelo. Ela era de uma época que recebia as amigas no terraço para o chá, todas com seus perfumes franceses amadeirados, cheiro de maquiagem, de laquê.

Morreu por culpa de uma doença degenerativa e nem com todo o sofrimento da doença, deixava a dignidade de lado. Lembro de só vê-la abatida, abatida mesmo, na reta final.

Gosto de pensar que ela era muito inteligente, intelectual, mas não tenho certeza. Devia ser afinal, filha de uma família rica de Pernambuco, ela teve acesso e gostava de arte, literatura, viajou para meio mundo, era bailarina e falava Francês. Pra completar o charme, tinha voz de cantora de rádio antiga. Apaixonou-se pelo meu avô, um “sertanejo véi”, folclórico, charmoso e bom vivant, que tinha péssimo hábito com dinheiro e que a levou para outra realidade. Aposto como ela não se arrepende de nada e eu agradeço, pois sou muito sertão, muito pé de araçá, pé no chão, bicho de pé.

Amava e incentivava minha vertente poética. Pensando assim, vejo que ela era do tempo que eu queria ser poeta. Acho isso muito marcante na minha história.

Sofri muito com a morte dela. E acredito, piamente, que mantive certo contato espiritual até o final da minha infância, quando os canais ainda estão abertos e o coração puro. Depois, aos 16 anos, quando tive o susto de ser diagnosticada com um melanoma, foi ela quem me acalmou, em sonho, me dizendo que eu estava curada.

Depois nunca mais.

Vovó virou história, virou minha lenda, virou bruxa, virou antepassado. Eu sou ela, assim como sou todas as mulheres que me rodeiam, as mulheres da minha família que surgiram dela, que fugiram dela, que se identificaram com ela.

Vovó é a mão fazendo cafuné e cantarolando pra mim, antes do sono chegar, ela é a voz dizendo: Lia, deixe de ser buliçosa.  Ela é o bom humor me ensinando a soltar pum sem fazer barulho. Ela é a graciosidade de me aceitar como eu era, por isso, acredito que seríamos grande amigas.

O que eu não acredito é que já estamos há 18 anos sem sua presença.

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