Cadeia Alimentar

Deve ser mais difícil para aquele humano em miniatura. Mais do quê para mim, por exemplo, que não vou crescer e tenho todos os membros fortes e desenvolvidos. Quer dizer, isso é o que eu penso, não significa que seja verdade e, pelo tanto de palavras pouco amistosa que escuto vez em quando, pode ser que não seja. Mas eu ando pensando muito. Penso e penso e começo até a achar que meus pensamentos estão influenciando o que eu vejo.

Hoje está fazendo um sol danado, mas não está calor. Não que eu esteja reclamando do calor, que eu prefiro mil vezes ao frio. Até porque, é no frio que tudo; os homens, os animais e todo o universo tropical mostra a que veio. Basta sofrer para que os segredos sejam desvendados. E quem sobrevive em temperaturas baixas?

O dia está ensolarado, o espaço é amplo e verde e seco. Vivemos os três juntos, somos esse grupo comum; ele, o avô, ela, a criança, e eu. Chamei o homem de avô, mas isso não quer dizer que haja alguma ligação sanguínea entre ele e a menina, a não ser a que foi construída, digamos que pela vida, digamos que tenha sido consensual, digamos que nenhuma das duas anteriores.

Ah, você quer saber demais se você quer saber onde dormimos todos, nós. Inclusive porque eu já falei isso no parágrafo anterior. No verde, dormimos na grama de mesma cor, sob o céu, o sol, as nuvens. Fingimos alegria em dias ensolarados e disfarçamos o que fica por trás da dor.

Fome dói. Deve incomodá-los mais do que a mim, que mesmo sendo de uma espécie considerada inferior, nunca perdi a compostura por causa de uma barriga roncando. O máximo de deselegância que já cometi foi aquela coisa básica, olhinhos brilhando, rabinho arrastando perto de alguém lanchando no parque. Já eles, não gosto nem de falar. Captou a explicação da ligação?

Pobre menina. Não deve ser fácil ser ganha pão de alguém. Pelo menos não está fazendo nada além do que pedir uns trocados, podia ser pior. Está tudo bem difícil ultimamente. Está difícil para todo mundo, está difícil para quem tem um colchão para dormir, imagine para aquela garota que cresce sem mãe, ninguém para lhe comprar calcinhas novas. Ela é muito carinhosa comigo, a pobrezinha. Dormimos juntos, brincamos juntos, estamos juntos agora, nesse momento. O velho vem em nossa direção com uns gravetos, uma garrafinha de álcool. Vem dizendo que se encheu de sustentar dois, além dele. Vem dizendo com uma garrafa de álcool, uns gravetos, uns jornais, uma faquinha de cabo vermelho, que vai tirar algum proveito dessa situação. Eu começo a me assustar, chego perto da minha garota. Mostro os dentes e lato, ele não vai chegar perto dela. Porque será que sou tão ingênuo?

Morrer não dói. É até melhor do que parece. Se senti algo, não lembro mais. Fome, dor, frio, calor. A única coisa que carrego comigo é mágoa, não foi fácil ver a minha menininha se lambuzando com a minha carne magra.

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