Caro, tantas crianças na rua

A felicidade dá bom dia em seus sorrisos e pequenas palavras ditas com esforço, a descoberta em cada sílaba, a língua que come o significado (sem omitir), a dicção de quem começa.

Elas chamam por seus pais e dão xauzinho para transeuntes como eu.

Imagina se a autoestima de uma pessoa como eu pudesse ser definida pela quantidade de elogio que recebe dos pedreiros e taxistas e andarilhos? A minha ganhou um bolão, fui chamada de princesa e outro disse que eu sou inacreditável, inimaginável. Mal sabem eles que eu não imagino nada disso. Normalmente imagino umas coisas bem malucas, às vezes até negativas. No meu andar marcado e certo nariz arrebitado, existe essa pessoa com medo. Aí eu me programo para o pior, sempre o pior: a doença devastadora, a pobreza extrema, a falta de sucesso profissional e as soluções, para quando essa merda toda acontecer e tomar conta. Nada disso impede que eu compre um cigarro e sinta esse prazer silencioso de fazer alguma coisa errada, protegida pelo prazer, a ilusão de que o mal não atinge as pessoas que esperam por ele porque aí seria clichê demais, não tem literatura que resista, não tem como começar nenhum livro contando que “ela era uma mulher muito inteligente, bonita, paquerada por todos os pedreiros e homens comuns, todo dia rezava para não ser pega por um meteoro, mas eis que sua fé não foi suficiente, ela foi atingida e morreu esmagada por um pedaço de pedra vinda do meio do universo”.

Penso no universo e acho lindo morrer esmagada por uma pedra vinda do céu. Todo mundo sabe que o céu é lugar das nuvens e até da nossa grande imaginação e nada mais. Acho graça e sorrio por esses pensamentos, eu vivo em estado de negação e um pouco mais de fantasia do que preciso. Mas que sabe do que eu preciso? Talvez você saiba. Eu queria precisar de mais pessoas além daquelas que estão ao meu redor, presas a mim pelo cordão umbilical do amor verdadeiro. Pouquíssimas pessoas. Tem gente que passa um rodo no mundo e ama todos que encontra daquele jeito bonito de quando éramos crianças, sendo que eu não fui essa criança. Eu não sei me envolver superficialmente, por isso elejo com muito cuidado a quem vou entregar a minha verdade, pelo menos gosto de acreditar que é assim que eu sou, e sigo respeitando isso que sou.

Querido, todas essas mini pessoas são tão delicadas em suas existências pacíficas e desbravadoras. Lembro de mim e de você o tempo todo, lembro dos infantes que fomos, tento imaginar o que você foi e me impressiona como é fácil te encontrar, criança que você ainda é.

Elas passam com suas roupas de natação e cabelos cheios de cloro e eu começo o dia como há 20 anos atrás.

Sempre gostei do que estava por trás, sempre fui viciada em silêncio.

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2 opiniões sobre “Caro, tantas crianças na rua

  1. você é dona de um vício muito sábio Marilia!

    muita gente luta pra alcançar esse vício mas a propensão que carregam em seu DNA é muito baixa e anula qualquer tipo de adição silenciosa.

    mas, por outro lado eu te peço, please, nunca se cale,ou nunca cale as palavras que você silenciosamente desenha no papel.

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