Fa(r)do da saudade

Quer dizer então que existe mesmo o tal do timing, aquilo que se fala de você estar no lugar certo, na hora certa, no momento certo e que a partir do momento (certo) em que tudo se encontra, os ponteiros do relógio se cruzam e acontece uma mágica.  Tipo aqueles primeiros minutos do ácido, antes da bad trip chegar e acabar com tudo, quando você olha para o horizonte e entende Deus, entende a si mesmo, faz mil anos de terapia em um segundo. O que ninguém fala é que depois passa, na mesma hora passa e só o que sobra é o que nunca deixou de existir: o vazio.

Não é fácil ser dois. Não é fácil querer estar longe e perto. Não é fácil ficar tão feliz com as conquistas e ao mesmo tempo saber que tudo isso uma hora vai acabar. Quem a gente mais ama vai morrer. A festa terá seu fim. Um dia você está cheia de calor, sendo atacada por nuvens de muriçocas esfomeadas, tendo suores noturnos, ouvindo incontáveis passarinhos gasguitos gritarem na sua janela sobre o dia que se anuncia e no outro você acorda cinza, no verde mais cinza que existe na cidade não tão maravilhosa como todo mundo diz.

Quem não conhece o Bessa não pode falar de paraíso, mas tudo bem. Melhor para mim que não conheçam. Melhor pra mim que ninguém vá até meu sonho para disputar comigo os balanços embaixo do pé de oliveira, as festas onde elefantes casam, as mocinhas não usam cor de rosa e os mocinhos são os que desejam filhos e amor. Lá onde os corpos têm cores diferentes, tamanhos diferentes, mas ao mesmo tempo são tão iguais.

Hoje acordei sentindo uma solidão tão grande que até tive medo de desaparecer.