Breath on

Ela diz que é porque a energia flui a partir do lado direito. A rotatividade do planeta, a circulação do sangue e o funcionamento das nossas vísceras. Seria lindo e suficiente se eu não estivesse nem aí para o que contenta tantos outros, afinal, todo mundo sabe que direito ou esquerdo não passa de convenção ( não?).

Eu vou para a yoga e eu sinto uma vontade louca de fazer tudo de costas para o altar só porque isso vai deixar muita gente lá dentro se sentindo diretamente atingido. Mas claro que não, eu respeito o desconforto dos outros. Eu mudo a perna (para começar com a direita) e faço aquela cara de quem está chegando ao paraíso. Como se o paraíso tocasse músicas indianas e tivesse cheiro de incenso. Climatizado ele certamente é porque lá na minha aula de yoga, o ar-condicionado está sempre glacial. Eu acho isso de uma contradição que mal sei por onde divagar. Sempre tive a impressão que suar fosse uma das chaves básicas para fazer uma boa limpeza fisiológica e cármica também, porque não? Isso sem falar no mal que deve fazer para meus pulmões fazer tantos exercícios respiratórios naquela temperatura baixa. Mas lá, o freguês sempre tem razão. O problema é que eu não quero ter razão, eu quero saber a razão.

Queria saber, por exemplo, porque o meu instrutor de yoga não usa cueca e fica lá, fingindo elasticidade em suas calças de moletom, todo à vontade, disfarçando um estalo ou outro das suas juntas velhas.  Queria saber também porque as groupies do pranayama são sempre tão iguais, vestindo saruel de malha, ecobags e crocs, com seus pulmões expandidos e a falta de pudor em deixar o professor sem cueca sentar em cima das suas costas.

-Estica que dá!

Dá mesmo, dá de maneira transcendental no meio do mato, depois, em algum retiro onde o guru sem cueca fala sobre as maravilhas da respiração. E olhe que não estou falando dos pés, os pés das pessoas que ensinam yoga. São grandes, parecem raízes, os dedos todos abertos e sempre com aspecto de suados. Talvez seja esse meu grande problema de adaptação, os meus pés não cresceram.

Tenho muito medo quando eu começo a deixar de gostar de uma coisa. Teve o vôlei, o handebol, o atletismo, o ballet, a musculação. Já entendi que isso acontece comigo, então, tento não dar vazão aos sinais. O problema é que eles não são crescentes. Eles não começam pequenos, lentos, como uma muda de planta. Minha insatisfação cresce como frango de granja, que mal passa pela adolescência. Vai para o alto e avante! Mas não desta vez. Desta vez eu estou com sorte. Sorte de não precisar me encontrar em outro lugar que não seja o amor que anda comigo, sorte de não querer encontrar um guru. Eu só sei que preciso respirar e relaxar, esticar o meu corpo. Isso vale o sacrifício de ter aulas com o famigerado homem que não gosta de roupa íntima.

Eu já tenho meu mestre. Ele vive independente de mim. Ele é chamado do que você quiser chamar.

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