tudo ao mesmo tempo agora

Uma das coisas que mais enriqueceram o meu crescimento foi bisbilhotar a intimidade dos meus. Meu hobbie secreto sempre foi mexer em cartas, caixas, fotos, fitas cassete. Ninguém foi poupado. Avó, avô, tias, tio, primos e primas, irmãos. Mãe e pai, principalmente. Marido super.

É que as pessoas não se revelam de verdade e só aparecem mesmo naquelas coisas que elas vão recolhendo pela vida. O tesouro pessoal, que não é feito de dinheiro, tem a ver com o tipo de música que gosta de ouvir, as fotos que estão à vista, a flor seca dentro de um livro, a maneira como organiza seus pertences ou ainda, a sua coleção particular.

Meu pai colecionava papéis. Seu guarda-roupa sempre foi um primor de organização e tinha um cheiro que sinto agora só de lembrar. Minha mãe nunca foi tão boa assim, em organizar coisas, mas sempre cuidou da melhor maneira dos outros. E também guardava bijuterias antigas, brincos trocados e as joias.

Meu avô escondia salgadinho aperitivo de mim, que pequena e buliçosa, sempre dava um jeito de achar e comer. O guarda-roupa da minha tia tinha cheiro de sândalo, tem até hoje, e eu adorava ver a minha mãe sob a ótica da sua irmã. A casa da minha avó sempre foi um paraíso inesgotável de coisas a descobrir. Portas, móveis antigos (…) refaço mentalmente o caminho por tudo aquilo e sinto que não explorei o suficiente.

Isso sem falar nas cartas. A parte escrita é o que fala mais sobre uma pessoa e eu sinto um tipo de êxtase quando me deparo com uma. Uma que fale de amor, uma que conte sobre um dia banal. Fotos dedicadas, quão lindas são? “Para você, vovô, no dia que apareceu meu primeiro dentinho”. A intimidade de uma pessoa me faz amá-la ainda mais. Para mim, amar é se entranhar na outra, se importar, conhecer, desvendar, curar, mergulhar, se fundir.

Tem a ver com o mundo também, andar por uma cidade e ver aquilo que ninguém está prestando atenção, a janela que dá para outros universos particulares, a luz que bate em algumas esquinas, ouvir o pio de um passarinho ou ver saguis brincando em fios de alta tensão. Tudo isso é como uma casa cheia de gente que esconde o que está por trás de cada uma delas; a humanidade. Essa é a minha brincadeira. E é tudo meu, só meu. É isso que faz com que eu ame, sem desistir.

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