Crônica de uma noite de outono

Peço uma garrafa de vinho em um bistrô perto do metrô enquanto te espero vir de longe.

Provavelmente chegarás molhado, pois chove, e enquanto observo os casais, penso no que podem estar pensando também de mim, que balanço a sapatilha verde fora dos pés, igual criança despreocupada, e tenho um livro em cima da mesa que não consegui ler, com o qual tentei disfarçar a solidão e a espera.

Entre um gole e outro de um superfaturado malbec (bem sabes que gosto dos fortes), me concentro em me desconcentrar para ouvir melhor os dois velhinhos ao meu lado. Pensei ter roubado o momento em que eles mostrariam que se amam, aquele momento típico dos casais que precisam sair de casa para se reconectarem à parte dos filhos, dos gatos, da cama em comum. Mas eles estavam rindo de mim, a jovem pretensiosa que bebe sozinha com um livro sobre a mesa, e dos meus anéis, muitos anéis. Vi que comeram pão na chapa e tomaram café com leite como boas pessoas que cansaram de estar bêbadas, e esse lanche noturno me encheu de ternura, tanta ternura que pensei imediatamente em Manaíra, nas noites de chuva que passei dormindo no lado da cama que vovó ocupava, naquela casa escura cheia de fantasmas da minha infância.

A mulher liga para a filha que não atende e ela, então, deixa uma mensagem carinhosa, tudo isso enquanto trocava olhares de cumplicidade com o pai daquela jovem que ainda ignora seus progenitores do outro lado da linha.

Disfarço a lágrima aflita olhando para baixo, fingindo uma coceira na canela, quando te vejo entrando pelo corredor, sempre atrasado, sempre indiferente às pequenas regras de educação que, se você soubesse serem da delicadeza, jamais infligiria.