De longe ninguém é nada do que a gente pensa

De longe não a notei. E nem tinha porque, ainda tinha que pegar  papel higiênico, xampu, isso sem falar que tinha uma coisinha imprescindível faltando que eu não lembrava de jeito algum. Depois de 1 hora vagando, comprando tudo da listinha, disputando espaço com outras pessoas, a maioria senhorinhas, fui pro caixa. Já na fila, atrás de 3 ou 4 pessoas, enquanto decidia se levava ou não o Kit Kat, reparei nela. A voz empostada, a coluna ereta, a postura mais digna que podia existir. Isso sem falar na felicidade. Me desestabilizou. O mundo silenciou, tamanha a aura inédita daquela pessoa. Antes que eu declarasse o milagre para meus estímulos neurais, cai no meu cinismo humano, urbano.

“Ninguém é tão feliz assim”, pensei.

Mas pode ser, não pode?

Se a delicadeza tiver uma intenção, ela estava materializada ali, naquela mulher. Apesar do batom borrado nas rugas mais profundas dos lábios, da pele um pouco estragada e do cabelo bicolor, tinha uma mania desconcertante de olhar nos olhos de todo mundo. Descrente e levada pela aparência, imaginei traumas de infância, traumas de amor, perda de filhos ou a falta deles, imaginei fé tardia.  Inventei, já quando estava a 1 pessoa antes de mim, que ela cometeu crimes terríveis e encontrou Jesus. Imaginei loucura.

Na minha vez, a mesma gentileza. Tanta clareza para se comunicar destruiu qualquer barreira social, qualquer teoria paranormal. Eu estava ali de consumidora mas, ela que era a pessoa importante. A caixa. A moça que me olhou nos olhos, me chamou de florzinha, me tratou com toda a humanidade que existe, somos, temos. Só podia ser fruto de alguma tristeza muito grande, pensei.  Ou da iluminação.

Enquanto me preparava para ir embora, ainda ouvi mais uma vez a educação da moça do caixa, como um eco de Deus dizendo que não existe fórmula para ser feliz. E foi com esse sentimento, de que há um mestre em toda parte, que caminhei de volta para casa.