Chispa da memória

Debulhavam milho, feijão, debulhavam muito feijão na “vargem alegre”. Feijão seco, feijão de corda. A calçada, todos aqueles grãos, e mais nada. Era tudo o que existia naquela paisagem. Isso e as carcaças. Bastava andar dentro do mato, entrar um pouquinho além da porteira que ficava depois do prado, para ver o que tinha sobrado de Teimosa, de Mancha Branca, de tantas outras. O mais interessante era que nós nem ligávamos. Claro que estava mais quente que de costume. Isso sem falar que o açude era só lama. Nós apenas não nos importávamos, inebriados pelas histórias que os adultos contavam  para nos entreter; tinha Maria Florzinha e tantas outras fadas e duendes e seres da caatinga que caminhavam junto conosco (acreditávamos nisso!), protegendo nossos passos no rastro de poeira que aquela seca deixava.

Isso foi há muito tempo, foi no tempo de uma avó, no tempo de uma infância. Isso foi no tempo que ouvi, pela primeira vez, que se debulhar em lágrimas significava deixar a tristeza rolar.

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