Fôlego

O jantar está descongelando na cozinha e eu já fiz alguns exercícios na sala, antes de encarar o chuveiro frio.

A chuva subiu até o nosso apartamento e eu viajei no cheiro bom de saudade que ela trouxe. Viajei e dormi.

Fechei os olhos sem culpa, mesmo que esteja há uns dias incomodada com os rumos da minha ansiedade.

Seria mais fácil falar só da beleza unânime e não reclamar de nada, tendo em vista os Haitianos e Africanos e os Índios e a toda a natureza que está neste momento, em pior condição que eu.

Mas eu me apego às minhas mágoas e até as guardo, confesso, com certo carinho no paninho que esfrego na cara, tal qual fazia a minha versão criança de algumas décadas atrás.

Pensei bastante, entre um afazer e outro, que talvez estivesse demais me carregar sozinha.

Aí fui até a janela ver a névoa que cobria a pedra do nosso bairro e senti todo o ar voltar aos meus pulmões.

Todo o ar que me foge, todo esse aperto.

Eu poderia ter ficado horas ali, até congelar, eu poderia virar uma estátua.

Eu poderia nunca mais me mexer.

Eu poderia facilmente nunca mais falar e penso que meu cérebro tem acompanhado meus desejos; nunca estive tão desarticulada e desmemoriada.

Aí lembro que falta pouco para você chegar em casa e sempre existe a chance de você estar de bom humor, saudoso, apaixonado e disposto a sonhar comigo.