Amém

Ela agora deu pra rezar. E enquanto constrói sentenças infantis, talvez por pedir a um Deus com quem só falou na infância, se esforça para não se ridicularizar. Como assim, alguém vai ajudar? Alguém vai aparecer com uma dessas máquinas enormes que aram o campo, alguém vai preparar o terreno?

Tem esse lado dela, o qual tenta apagar enquanto se concentra para lembrar as orações de anos atrás, que acha tudo uma grande bobagem. Como se a vida adulta por si mesma fosse uma condenação da qual não pode fugir. Abriram as cortinas, a platéia seguiu seu rumo, todo mundo abre a porta do seu próprio carro, segue um caminho que lhes for mais conveniente. É essa a lição. É isso que ela entendeu como milagre; a vida que cada um pode construir pra si. Não Deus. Não os santos anjos do senhor.
Mesmo assim, entre uma sentença e outra, que profere muito devagar e com reflexão, ela lembra de tudo.

Pai nosso, estás no Céu? Onde estás? Eu sei que eu deveria agradecer, vejo todo dia, em diversos lugares, mensagens desse tipo das pessoas felizes, das pessoas que superaram. Claro que eu tenho pelo que agradecer. É tão óbvio, não? A saúde vai bem, o amor flui, eu enxergo, eu sinto, eu amo os animais, meus pais estão vivos. No fundo é só isso e está tudo bem. Mas aí, chega a noite e o colchão parece disforme e as lembranças incomodam demais. Formo diálogos inteiros, como se recontar a história pudesse transformá-la. Tento achar culpados para uma trama que nem sei mais qual é. Os anos passam e eu não consigo sair do lugar. Então, se você existe, se está por aí, saiba que eu não quero ser vista como uma pessoa que não sabe agradecer. Eu agradeço, mas também tenho um pedido. Ainda posso pedir algo? Tipo quando pedia para ninguém morrer, tipo quando pedia para todos os seus anjos formarem uma grande corrente de mãos dadas em cima de todos os telhados das pessoas que eu amava? Então, se eu ainda puder pedir algo, eu queria pedir uma garantia, só uma. Eu queria só um sinal de que vai ficar tudo bem.

Acordou às 9h da manhã ainda com sono, com sede. Pensou em lavar o cabelo, em depilar a virilha, em fazer a unha. Sabe que tem que ler, sabe que tem que estudar. Sabe de tantas coisas, mas gosta mesmo de ficar paradinha, quietinha. Anda pensando até em fazer um voto de silêncio. Quer desaparecer. Não quer obrigações. Deixou a vaidade de lado. De certa forma, está se achando bonita assim; triste, sozinha, cabeluda. Protelou um monte de obrigações, come o que tiver, abre garrafas de vinho, escuta música, vive como se todo dia fosse domingo.
Naquele dia, culpa de um raro entusiasmo matinal, decidiu que ia fazer tudo o que tivesse que fazer, o que as pessoas ativas fazem. Dobrou os lençóis, arrumou a cama, lavou a louça, cumpriu algumas pequenas obrigações adiadas e sentou no sofá. Um incrível silêncio de vida. O vento que sopra na janela, os vizinhos que batem portas, o som da luz de uma primavera fresca. Lá de baixo, vem também, as vozes das pessoas, e é quando elas se misturam a todas as outras coisas, que ela pode se transportar para aquele roteiro que anda escrevendo de como viver a própria vida. Sonha acordada e vive dormindo, essa Anna.
Uma, duas, não sabe quanto ficou ali, contemplando, quando ouviu o telefone tocar. Horas se passaram sem que tivesse levantado do sofá. Ainda não havia falado com ninguém, nem queria. Mas o telefone toca, não dá para ignorar isso. Quer dizer, dá sim, ela faz isso com freqüência. Mas, não hoje. Hoje Anna decidiu que ia fazer tudo o que tivesse que fazer. Atendeu e reparou que estava rouca. Engraçado só perceber isso no meio do dia. Era a diarista.

– Alô?
– Anna, aqui é Tereza, minha filha. Não posso ir amanhã. Peguei uma friagem, estou doente.
– Tudo bem, Dona Tereza. E amanhã?
– Amanhã tenho outra cliente. Só semana que vem mesmo. Mas a roupa eu vou deixar aí, passada. Tá? Um beijo menina.

E desligou. Sentiu ternura por Dona Tereza. Chora um pouquinho. Ser chamada de minha filha quase é suficiente. Mas, a casa vai ficar suja. Isso é difícil de aguentar. Pelo menos sua roupa estaria lavada, tenta se convencer, e isso já era um motivo para ficar tranquila. E começou a praticar a tranquillidade. Mas o pensamento, quem pode deter? Vai subindo de baixo, do períneo, uma tensão que quando bate no estômago, vira queimação. Sobe mais um pouco o coração acelerado, a respiração ofegante, a garganta aperta até que não dá para segurar o choro. Mas não hoje. Hoje ela aproveitou que já estava chorando um pouquinho com a delicadeza da diarista, enxugou as lágrimas, espantou a pena que sentia de si mesma e tirou tudo que estava entre ela e o aspirador de pó, esquecido no armário. Olhou o relógio do computador, 18h. “Não é uma má hora”, pensou. E antes de começar a limpeza, elaborou o mise en scene.

Em tudo que vai fazer, proteladora perspicaz, Anna gosta de reservar um tempo para organizar a ação. Na verdade, é seu grande prazer; preparar os ingredientes antes de começar a cozinhar, a comida toda picadinha em travessas separadas, ou pensar na roupa que vai usar um dia antes; as peças escolhidas, os acessórios, sapatos, bolsas e até o batom. Para esta faxina, não vai ser diferente. Tira tudo do chão, coloca em cima do sofá, da mesa, da cama. A casa sem obstáculos é uma visão agradável para ela, e só isso já a enche de uma alegria. Mesmo desajeitada para os afazeres domésticos, começa a se empolgar, prende o cabelo e coloca o chinelo em cima da cadeira da mesa onde fica seu computador de trabalho mas, antes de ligar a máquina da limpeza, lembra de repente, e já em um estado de muita empolgação, que – tem que tirar o pó dos móveis!
Procura um pano, algo que possa usar, tem que ser o apetrecho correto, por isso demora mais que o previsto, até resolver rasgar uma camisa velha em pedaços.

Começa levantando todos os bibelôs, artesanato, caixinhas, biscuits, porta-retratos, contas antigas, contas novas, caixas de remédio até que enche o saco e começa a limpar só em volta das coisas. Pensa se não seria bom limpar livro por livro, da imensa estante. Mas aí vê de novo a hora e se dá conta que são quase 20h. Antes de absorver o insight sobre o mistério do passar do tempo quando se está ocupada, pensa e fala alto, como um grito de guerra:

– Vamos aspirar!
É tudo tão empolgante. Usa um bocal menor para os cantos da parede, um que parece uma escovinha para os tapetes e um maior para o resto da casa. O barulho, a eficiência, o prazer de ver o resultado no mesmo momento: quanta satisfação. Terminado o serviço, sente uma onda de felicidade fazer o mesmo trajeto que aquela anterior melancolia. Perínio, estômago, coração, pulmão. O ar passa leve, o cérebro recebe a mensagem de felicidade e ela, de repente, sente como se estivesse se reencontrando consigo mesma depois de anos de ausência. Enrola o fio do eletrodoméstico, guarda tudo com muito cuidado, reorganiza a casa toda. Acha estranho sentir essa leveza, sente um pouco de culpa por sentir prazer com uma bobagem, – nem salvou o mundo, nem alimentou pobres, – por ter mandando embora, sem nem se dar conta, a velha conhecida tristeza. Mas, a casa está em ordem, foi obra sua. Ela fez aquilo sozinha. Ela limpou tudo, determinou a ordem das coisas. Ela pode controlar a sua própria vida. Por um momento, cheio de egocentrismo, pensa se ainda vai acreditar em Deus, mesmo que ela tenha sido responsável por tudo aquilo que vê agora.

Senta de novo no sofá, o dia já se foi. O céu escuro, a brisa fresca, a música que nunca parou de tocar e o barulho da fechadura, indicando que seu amor chegara. Por via das Duvidas, resolve manter a boa relação.