Fragmento

Vez por outra encontro os pedaços das unhas que você deixou pela casa.

Como se estivessem brincando de guardiãs da memória, elas desaparecem por semanas nos lugares mais óbvios, fugindo do implacável aspirador de pó e da vassoura que eu passo nos dias de preguiça.

É claro que já pedi mil vezes que você não continuasse com essa mania e ainda mais que não as jogasse pela sala, mas muito dessa minha implicância tem a ver com um resto de hipocrisia e neurose que habita em mim, como o meu desconforto em ver você fazendo o que quer que seja dentro do banheiro, e ainda assim goste de aparecer na sua frente com a boca cheia de espuma para ver nos seus olhos a ternura do amor que sentes, achando até bonita a minha distração e deselegância, perdoando com antecedência que meu bem-querer não seja assim, tão tolerante.

Nós deitamos na cama, lado a lado, conservando, na soma da nossa idade, 72 anos do que ninguém vê, do que ninguém mostra. É por isso que ficamos aqui, não é? Presos à essa Terra do Nunca particular, ignorando o que dizem sobre networking ou, até mesmo, amizade.

Você insiste que eu beba 2 litros de água e é por isso que agora eu ando com uma garrafa de vidro para todo lado. Bebendo água, tomando chá, quase submersa nesses líquidos saudáveis.

Um dia eu morro afogada, se não de amor, de desânimo. E o que importa a causa mortis? No final, tudo acaba sendo uma janela do sétimo andar.

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