A arte de selar cavalos

O cheiro da chuva quando bate no chão é do que eu mais me lembro.
E tinha também o choro dos caprinos lá no longe depois da porteira e o cheiro que deixávamos, bodinhos que éramos, como rastro no chão xadrez.
Dentro era um breu e por isso entrávamos em casa um pouco cegos, passando a enxergar já na porta do banheiro, na fila que tinha para nos lavar antes do almoço. Se estávamos eufóricos demais, a comida podia ser apreciada com as mãos e o suco era uma mistura sonífera de vinho, açúcar e água, que era para não padecermos esturricados no sol da tarde.
Quando subia o calor e a terra entrava e se aninhava nos pelinhos dos nossos pequenos narizes, era também a hora que o vento soprava já mais leve, anunciando a noite naquele deserto tão fértil. Tinha o mato de matar verme, o sabugo de limpar bundas, o bicho que chupava sangue, mas tinha muito mais na garupa dos cavalos que possuíamos, cada um o seu.
A várzea não é mais alegre por aquelas bandas. E de lá eu não guardo mais as fotografias, nem a vontade de voltar. Enterrei as duas coisas no fundo de uma caixa velha de mudança com a promessa de ali deixá-las até que estejam prontas para a despedida. Até que eu esteja pronta para dizer adeus.

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