O voo

Estou lendo um poeta bêbado e jovem,

talvez um pouco babaca mas, só até o nível do charme,

que me fez pensar em você.

Provavelmente você nem gostava tanto de mim

e mesmo assim

eu mantinha um desejozinho secreto

de ser a preferida

sabendo que a sua musa já andava por aí

com um crachá de identificação.

E ele fala de cigarros e excessos

e eu lembro como você era uma diva louca

carente e contida,

tendo que se jogar em bebida para explodir

e depois correr pra casa juntando os pedaços

por ter sido demais.

Também te vejo perdido entre meus exercícios para o bíceps e peitoral,

porque era dos seus braços que eu mais gostava,

e também da sua gentileza em sempre segurar

a porta do elevador.

Eu nunca soube o que fazer entre os com sol em peixes

mas aprendi a te querer por perto

para fumar um cigarro escondido,

ou rachar um taxi pra casa.

E era sofrível ver o seu esforço em querer

que todos te amassem, disfarçando a sua bichisse

ou, pior ainda, quebrando a porra toda só para virar o viado que sabia rir de si mesmo

como um adolescente que quer muito ser popular.

Também nunca entendi a sua estratégia e confesso sempre rir em desespero

quando lembro o que me disseram para avisar que você se fora.

Antes mesmo das cortinas fecharem você foi embora,

você nem ao menos se preocupou em limpar antes de sair.

Você, que tanto ligou para o que pensavam,

não se importou em deixar assinado na rua da minha casa

o sinal da sua despedida.

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2 opiniões sobre “O voo

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