Magote

Antes que dê para perceber, a vida nos empurra para frente. Podemos até nos agarrar ao galho mais próximo, ou à barra da saia da mãe, na tentativa de adiar um pouco o enfretamento. No entanto, uma hora, é certo, seremos só nós. Nós e o mundo.

Parece doloroso, e é, não se engane. Dói muito ver de longe, pela janela, que a zona de conforto está logo ali, inalcançável. Mas porque, quem nunca se perguntou, não podemos simplesmente ir até a superfície do colo materno para respirar?

Tem um momento da minha infância que eu lembro para sempre, está esculpido na minha memória, que era quando eu deitava minha pequena cabecinha na barriga da minha mãe e ficava ouvindo os barulhos do seu interior. Devia ser saudade daquela primeira morada, imagino.

Eu sempre quis independência, nunca gostei de cabresto. Sempre quis me jogar em aventuras, assumir minhas próprias responsabilidades. E assim o fiz. Deixei árvores, mar, cordão umbilical para trás. Deixei irmãos, pai, amigos que nem lembro mais o nome ou, até mesmo, as feições. A vida é outra, como se eu nunca tivesse nascido ou como se estivesse viva há tantos anos quanto está a árvore mais antiga. Eu quis e pude me reinventar, só para perceber que eu estou mais perto de casa do que eu imagino, ou quis estar. É que o sangue tem um chamado muito doido, como se os genes fossem forças ligadas aos astros, ou ao que rege o mundo.

Se somos todos um só,  no que eu acredito fortemente, esses que têm ligação cármica estão mais conectados do que desejam. E que prazer ver isso acontecer. Que inspiração, que expiração. Depois do amor, tudo é amor. Há amor no outro que atravessa a rua ao seu lado, no cachorrinho com seu dono, no vendedor, no vizinho, nos macaquinhos que vão comer a banana na sua mão.

Quando completei 32 anos, ganhei de presente a lucidez para aproveitar diversas expressões de bem-querer por mim. É estranho ficar feliz com isso, mas é que eu nunca soube ver bem o quanto os outros me estimavam. E perdi tanto tempo me sentindo uma ovelha negra que nem percebi que todas essas diferenças, no fundo, eram uma coisa só. Como o mundo funciona, eu amo e sou amada.

Como o mundo se apresenta, eu e os meus andamos juntos e rimos, trocamos confidências, agregamos novos participantes e até celebramos a vinda de uma nova geração.

Eu sei que todo mundo muda, que é para isso que existimos. Mas eu nunca pensei que a minha mudança, a mudança que eu busquei indo para longe de todos, só fosse me aproximar ainda mais destes que são a minha casa.

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5 opiniões sobre “Magote

  1. É lugar comum reconhecer que não há fronteiras, nem haverá, apenas em nossas mentes, ainda que de forma efêmera, quando tentamos nos afastar de nossas raízes. Ainda teremos tempo para sentir os elos. Sob o sol nada mudou e nem mudará.

  2. Ei, aos 37 continua a mesma coisa, Querer o colo da mãe. Uma hora a gente rejeita, uma hora a gente sabe que a coisa mais única da face da terra. Acho que aos 40, aos 60 também. Nada como um aconchego de casa. Bora aproveitar….

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