But Don`t

Eu tinha 11 anos e pintava a boca com o chanel vermelho da minha avó, vestia uma bermuda velha de malha preta desbotada e andava pelas ruas achando que tinha muito o que dizer com minha bandana roxa como um Axl Rose anão. Sentia muito e ainda sinto algumas lembranças esquecidas nos labirintos daquela casa assombrada e ainda mais no asilo vizinho, mas principalmente esqueço os vultos de um quarto sujo e algumas brincadeiras impróprias de criança. E quando leio o que nem sabia que queria ler e encontro as metáforas que o escritor não queria revelar, sinto pontadinhas de felicidade e me vejo falando sozinha, o que é ótimo, pois é exatamente quando me percebo maluca que chego ao ponto final. Descer do ônibus não é nada de mais, apesar de eu achar muitas vezes que já foi algo. Então eu ando sempre atenta, como quando era uma imitação orgulhosa de um cantor dos anos 90, olhando muito para dentro de mim mesma, que, afinal, ainda é o lugar mais interessante para estar. Tenho 11 anos a maior parte do meu dia, querendo que todos me vejam além da minha invisibilidade, só que agora eu não sonho mais com aquele garoto que iria afastar todos os outros, vendo só a mim, rindo comigo, de mim, simplesmente porque esse menino dorme ao meu lado todos os dias.

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