Entrego, confio, aceito e agradeço

Queremos direitos iguais, contanto que não interfiram no nosso. Queremos trabalhar com mais eficiência e termos tudo ao nosso dispor, contanto que não tenhamos que deixar tudo ao dispor do outro. Pagamos e queremos também gentileza e educação, e não pensamos que nosso dinheiro não pagou por isso e, sendo assim, não somos gentis e educados em troca.

Nessa caminhada por dias melhores, nossa indignação ficou aguçada demais e nós não nos contemos em expressar o que queremos. Direitos, direitos, queremos mais direitos! No entanto, me surpreende que ninguém pense em começar isso pelo primeiro passo. E sabe onde começa essa prática? Em nosso ego. Ou melhor, na dissolução dele.

É que aquele lance com nossos médicos xingando os colegas cubanos me deixou chocada demais e ontem, na academia, uma moça fez caso quando peguei o álcool e o paninho para limpar a minha cadeira.  “Eu que peguei esse, é meu!”,  ela disse. “Mas não tem suficiente para todos…”, falei. “Não podemos dividir?”. Ela respondeu que não, puxou da minha mão (eu pude acabar de usar antes, que gentil) e saiu. Eu fiquei bastante chateada, mas na mesmíssima hora, encarei a lição. Nós somos essa moça.
É claro que ela não é apenas isso, uma pessoa tacanha, grossa e egoísta. Em algum lugar, na sua vida pessoal, ela quer ser uma pessoa melhor, deve ser uma boa mãe, ou talvez seja uma boa amiga, acho que ela deve estar compartilhando sua indignação com amigos do facebook sobre os últimos acontecimentos mundiais; da Rússia homofóbica à não cassação do deputado de Rondônia. Mas, ali, naquele momento simples, banal, ela foi uma tirana.

Todos estamos tão ultrajados, ultimamente, e só de sentir isso parece que basta. Não é bem assim. A oportunidade aparece toda hora, está em toda parte. Podemos amar Deus e tratar mal o porteiro. Acontece. Só acredito que em algum momento teremos que despertar que é o nosso porteiro que vai poder nos levar para esse paraíso aí que tanto procuramos; aquele com respeito, colaboração, compaixão e direitos iguais. É nisso que penso todo dia, a cada dinâmica interpessoal, a cada jogo de cintura que tenho que por em prática por conta do outro, lembro que eu sou também o outro e que da minha parte, pelo menos dela, eu posso cuidar.

 

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