Se quer de graça, aguente

Você aprende a ter menos pudor com seu corpo quando faz alguma atividade física que envolva contato com o outro. Teatro, artes marciais, dança, yoga, tudo isso nos leva a dividir com desconhecidos a proximidade do suor, do hálito, do cheiro corporal e do pé.

Estou enfatizando o pé porque uma vez ganhei uma sessão de massagem grátis, em um estúdio de pilates onde fazia aula. Quem me conhece sabe que eu sou viciada em massagem. Viciada do latim viciada e, naturalmente, fiquei empolgadíssima com a possibilidade de ganhar uns apertos no intervalo do almoço. Voltar para o trabalho renovada não é para qualquer um, né? Pois bem.

Cheguei no local e o ambiente já estava todo preparado para me receber. Música, incenso, aquela coisa toda que envolve a prática. O que aconteceu a seguir foi das situações mais constrangedoras que já vivi, pior que ela só a vez que a ginecologista me deixou na cadeira de exame, com o bico de pato dentro de mim, para discutir com a filha adolescente, que havia ligado e ela atendido no meio da consulta. Meio mesmo. Mas isso é papo para outra hora.

Voltando ao dia do mimo, o moço me levou até a sala de yoga e pediu para que eu deitasse em um dos tapetinhos. Na hora pensei:”olha, isso vai ser bom, hein?” Foi quando ele começou a pisar nas minhas costas. Ele pisava nas minhas costas, depois pisava nas minhas mãos e por aí foi. Tudo que ele fazia envolvia os pés. Se ia alongar algo, tinha que me pisar em alguma parte. Em um momento, tive que abrir os olhos para ver se não se tratava de uma pessoa sem braços, tamanha obsessão do “terapeuta” em não utilizar as mãos e, claro, minha ignorância em desconhecer a técnica. Digo isso porque até na minha cabeça o cara pisou. Sim, ele foi até a minha testa, eu confesso. E olha, tem mais uma coisa, tenho que falar, preciso tirar isso de dentro de mim: os pés do cidadão estavam super, eu digo, master, suados. Então o que deveria ter sido um momento agradável de relaxamento, virou quase…eu não quero dizer. Por favor, não me obrigue. Ainda me sinto suja.

Desde a pegadinha cármica, tenho questões mal resolvidas com pés alheios de desconhecidos. Até que comecei a fazer muaythai. Para quem não sabe, não existe um sapatinho específico para essa aula. E se existe, ele não é comum lá onde frequento então, ficamos todas, mulheres de todas as idades e cores de esmaltes, descalças. A primeira coisa que percebi quando cheguei no espaço de lutas foi o cheiro forte, muito forte. Um cheiro marcante de… chulé. E claro, isso incomodou a princesa limpinha que interpreto com ardor diariamente. Pés desnudos, fedor, aquela aula prometia. Prometia muito contato com o corpo do outro! E isso me assustou. A mão que ia no chão sujo, era a mesma que pegava no meu pescoço…Isso sem falar no suor, muito suor que todo mundo, inclusive eu mesma, produzia. Aquela água corporal toda no chão, bem ali onde deitávamos, dá para imaginar?

Como não existe pudor em uma aula de luta, pouco a pouco aquele exercício diário me ensinou a relaxar. Perdi a frescura e concluo que foi o contato físico que me libertou da armadura racional-social, peça que não só escondia minhas “partes”, como também minha humanidade. É bem piegas essa minha conclusão e não é você quem está achando isso, sou eu mesma, mas de fato, foi fedendo em grupo que eu me re-conectei com o bicho que sou. Pois é. E você aí achando que muaythai não tinha profundidade.

De todo jeito, insight à parte, nunca mais na vida quero uma sessão de massagem feita por um massoterapeuta especializado em Ashiatsu, que é essa tal massagem feita com os pés. Nem de graça.

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