Black Hole

A mesa de telefone ficava no corredor, quase que simetricamente posicionada entre a porta de entrada para a área dos quartos e a suíte principal. Era um tipo antigo de móvel, daqueles em que cadeira e mesa faziam parte de um todo, representando uma época romântica e de joie de vivre da comunicação. Além do aparelho, daqueles que para mim sempre pareceram um fusca, também era possível encontrar uma caderneta com números das mais variadas pessoas, canetas e lápis e uns exemplares em miniatura de livros clássicos; de filosofia a romances.

Era um lugar escuro e se a conversa tivesse boa, podia-se passar horas sem perceber se ainda era dia ou se já era noite, o lápis a rabiscar o caderno de contatos já castigado por outras mãos nervosas. Constelações inteiras foram desenhadas ali, estrelas que invadiram até as folhas de Balzac, receitas de biscoitinhos que foram parar junto aos ditos de Machado de Assis. Fofocas, silêncios, segredos, amores platônicos e amantes, todos visitantes daquele cantinho e daquela casa. E foi esse telefone que tocou ontem à noite, chamando – Filha, como era mesmo aquela música que cantávamos juntos? Vamos cantar, está na hora. – Na hora de quem? Perguntei e acordei.

A memória é uma mentira que inventamos para nos situar no mundo, como uma âncora que garante que o barco fique junto ao cais. Na verdade, a memória é o cais, é o porto, é o amor. Talvez a memória seja Deus, que está na lasca do azulejo azul quebrado da piscinha em formato de L, na penteadeira desorganizada de uma avó idolatrada, na gaveta de documentos e petiscos para adultos do escritório do avô, nas fitas K7 antigas de um adolescente que um dia virou meu pai, nas fotografias sorridentes da menina linda que virou minha mãe, nos animais que amamamos, no cheiro do guarda-roupa de uma tia muito amada, nas selas de cavalo na sala de televisão, nos cabrestos nos armadores de rede da varanda, nos jibões atrás de toda porta de uma casa de fazenda encantada e assombrada por comadres florzinhas, cachorros loucos e liberdade.

Mas liberdade mesmo, às vezes, é levantar a âncora e desligar o motor. Deixar a lua ditar o mar, deixar o mar determinar. Quem é você, menina? O vento sussurra me perguntando nas encruzilhadas. Eu nunca fui embora, ele sopra mais forte bagunçando meus cabelos curtos, cantando sons que conheço, oferecendo conforto familiar nessa existência de coisas e paisagens que aparecem e desaparecem, de gente que nasce e que morre.
Eu estou aqui, alguém está lá. E onde é lá? De quê importa? Lá é aonde o mar me levar.

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