Happy hour

agora todos colocam
suas pernas cinzas para fora,
resgatados dos bunkers residenciais
e desfilam cheiro de mofo
nos bares e calçadas
e mantém em seus olhares aquele brilho
misto de euforia e histeria
depois de um longo seqüestro.
o mundo, depois do inverno
que maravilha!
as flores ressurgindo,
até os aviões fazem mais barulho
-será que sempre fizeram?
não entendo nada de física,
mas gosto de me manter curiosa,
acreditando no impossível e no misterioso,
por isso aceito essa teoria
de que a chegada da primavera propaga o som
propaga também a nossa felicidade.

antes a gente voltava pra casa,
rindo alto, sozinhos,
provocando vizinhos que não iriam gritar na janela.
ninguém para reclamar
nossa deselegância alcoólica
ou a minha tagarelice nordestina
que tristeza!
agora não
há dias acordamos
com passarinhos piando alto,
e com os barulhos astrológicos feitos pela lua,
que atrapalha meu sono
quase a ponto de ficar impossível
disfarçar minha dança com os lobos.

a cidade desafia os clichês
e é por isso que NY parece mais leve
que a mata atlântica carioca
é por isso também que eu ando batendo os pés,
deixando para trás as folhas secas
os pernilongos famintos
a mania de fofocar na calçada de casa
ou na cozinha do escritório
e vejo os yuppies remanescentes
se misturarem a homeless, artistas,
drogados e jovens mães na mesma calçada,
onde simulam caminhar na mesma direção,
como se o ponto de encontro de todos
fosse algum bar com cerveja a 4 dólares.

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