Manaíra Dreams

Não tem mais ninguém
na casa vazia
é isso que querem
que a gente pense
eles e seus caminhões
com suas bolas de ferro
e seus capacetes
e seus horários
de almoço
como se quebrar uma casa
na hora da sobremesa
não fosse nada de mais
enquanto pedem e provam
pela última vez
o manjar
os deuses degustam e assistem
de longe
os homens e suas luvas de trabalho
com a mão na manivela
jogando a bola de ferro
em direção à janela da frente
será que deu tempo de guardar
o batom vermelho
de mudar a penteadeira
de lugar
será que vamos precisar
de todos esses grampos de cabelo
nunca deu tempo de colar os tacos
ou de consertar o ar-condicionado
e foi impressionante
como todo aquele espaço
coube em uma mala
que dividimos por sorteio
menos a prataria
que desapareceu
em uma noite quente de verão
sem lua, sem vento
sem barulho do mar
que de tanto silêncio
o cachorro não latiu
e até lambeu a mão
de alguém que agora bota a boca
na mesma colher
que usamos para comer
o nosso doce preferido.