quarta-feira de cinzas

As árvores peladas
como corpos sem braços
dão a impressão de impotência
pressão sobre meu peito
a luz filtrada pelas nuvens
incidem na ex-cor dessas perucas verdes
que aparecem bem na altura da minha janela
a dizer ”é tempo de espera”
é tempo de voltar àquele salmo
que ensina a natureza óbvia da paciência
e entre um gole e outro de chá
que eu coleciono sem beber
penso em como a calma
é supervalorizada como caminho
penso em como a sua camisa vermelha
não diz nada sobre você
ou aquela foto na praia
daquele pai com uma filha grávida
não fala nada de mim
nem sei se sou eu
nem se algum dia serei
já que não sou filha de ninguém
nem jamais estive grávida
estou mais para um sabiá da madrugada
sujo de fuligem
rouco de cansaço;
cortaram os galhos da amendoeira
derrubaram seu ninho
como derrubam meus castelos
dia após dia
pelo excesso de palavras
às vezes pela falta delas
eu sou um homem só
e dentro de mim
mil outros homens insistem em sair
sem saber
que nem de multidão eu gosto.

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