O primeiro verbo

Eu não sei onde o amor está
Se ele se esconde no Hotel Pompeo
ou se ele carrega as sacolas de feira da moça
que sobe a escadaria do Jardim do Valongo
ou se ele parou para comprar uma lâmpada 120w
que iluminasse melhor o banheiro
ou se pensou melhor e comprou logo duas
pois lembrou que a cozinha também carece
Não sei se o amor está em uma mala
se é uma manta velha, se ele é aquele sonho
em que faço meu próprio parto no banheiro
e sugo da boca da minha filha
o muco que a impede de sentir o mundo
pela primeira vez
se ele é o rasgo da minha vagina
ou a dor do rasgo
se ele é mãe e filha de mãos dadas
se ele é o passarinho resistente
à poluição da praça mauá que talvez
por nostalgia ou por bairrismo
continua a construir seu ninho nas últimas árvores da região
Eu não sei, não me pergunte
não me force a pensar se o amor passou por mim
batido no metrô da linha 1
porque corria apressado para pegar a baldeação

Quando desço na Av. Marechal Floriano, demoro 12 minutos para entrar no trabalho. Caminho 900 metros e dou tantos passos a pensar na história da história da história que estamos construindo e no tempo que une todas as almas em uma tricotagem esquecida, pois a arte de ser é mais antiga que a arte de estar, mesmo que uma língua germânica antiga insista em dizer que uma coisa está atrelada à outra.

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