Solitate

Essa é a minha função
costurar todos vocês
a partir das orelhas
pontinha com pontinha
que é para dar liberdade
para as palavras que precisamos dizer
os prendo e liberto nesse cativeiro
nosso pequeno mundo de testes
re-testes
nessa vida e nenhuma outra
– fecha o portão
– cuidado com os bichos
– não esqueçam de apagar a luz da sala
(mas deixem a do jardim acesa)

com bastante atenção
ouvirão o mar na lua
rasgando nossos nomes na areia
nossas iniciais estão enterradas
na primeira barricada já construída
e sempre teremos os escombros dos primeiros vizinhos
para nos esconder do asfalto
parece que faz tempo
desde que estamos juntos
mas toda vez que volto
parece tudo tão novo
ainda bem que não o suficiente
para que não saibamos quem somos
(o que não sabemos, amor)
mas gostamos de fingir que sim
ainda bem
ainda bem que somos tantos

que as portas estejam sempre abertas
para quem quiser entrar
e que o muro seja o simbolismo da nossa juventude
enquanto a gente não se cansar de pular
parece uma aventura
e assim gostamos que seja
tem sido uma aventura
por isso comemoramos termos sobrevivido
ainda estamos vivos
é a isso que devemos brindar.