Pequenos parágrafos de coisa alguma: capítulo vida

Todos os dias, desde que cheguei, eu fiz meu almoço direitinho. Faz tempo, na verdade, que dou conta de uma rotina alimentar só para mim com muito esmero. Vez por outra acabo comendo o que sobrou do jantar, mas geralmente gosto mesmo é de fazer uma coisa simples, gostosinha. Nada de salada com grelhado, isso só em último caso. Minha preferência é por comida quentes, cozidas: legumes, um caldinho, por aí vai. Por isso estou tão feliz com a variedade que encontro nos mercados daqui. Tem muita coisa fresca, boa, orgânica. Teve aspargo com ovo poché, teve brócolis e arroz integral, teve massa com manjericão e molho de tomate e também camarão.

Ouvi muitas vezes que cozinhar só para uma pessoa era chato. Não vejo como isso seja possível de sentir. Eu gosto de me agradar. O ritual de colocar uma música, liberar a bancada, separar os ingredientes, preparar com calma, comer, limpar tudo depois, faz com que as coisas tenham sentido. Não há livro sendo escrito, não há vida sendo salva, crianças sendo gestadas. Há uma pessoa, em uma janela da vida, vivendo. Aqui onde estou tem muitas janelas. Hoje, no almoço, eu tomei uma taça de vinho. Sozinha. Vivendo.

Não faz muito que eu adentrei nessa cidade, mas isso não é desculpa para o ritmo lento, eu deveria saber antes de ter vindo quais respostas quero encontrar aqui. Mas eu não sei. E eu já fiz isso antes, já sai correndo só seguindo a vontade de correr (que às vezes, é o que importa). Mas parece que não aprendi a “lição”. Talvez seja porque, para mim, mais da metade da diversão é abrir uma porta e entrar nela para só depois pensar o que fazer naquele espaço vazio. Eu nem sei bem como é ter tudo sempre organizado na vida. Existe alguém que sinta isso; plenitude? Um monte de gente, claro. De vez em quando sinto inveja dessas pessoas e da paz de ter uma vida que boia sem perigo.

Agora chegou um momento de ficar um tempo ancorada e eu não sei por onde começar. Um plano, um plano, tudo parecia mais fácil de resolver antes de chegar aqui. Existia tanto desejo e também um sonho, como seria morar em NY, babe? Você lembra de nós, juntas, falando sobre isso durante a aula de Teoria da Comunicação? Mas o que são os sonhos? Eles podem mesmo, um dia, se transformarem em coisas reais?

A vida, que nem é tanto assim de delicadezas, joga, direta, a pergunta: você quer mesmo realizar tudo isso, amor? Porque as coisas vão brotar na sua frente e não vai ter como escapar. E eu vejo esse monte de obstáculo, que encontro quase como quem conhece novos amigos, — Ei, tudo bem? Vamos nessa, juntas, já que não teremos outro jeito?

O dinheiro, a carreira, tudo em stand by. Por outro lado, o novo à disposição. É por isso que eu cozinho para mim, atenta e cuidadosa, não posso ter nada me atrapalhando; eu estou em observação. Eu tive um sonho que demorou a se realizar. E quando chegou, me pegou paquerando com outras coisas (veja só). Mas acho que tive sorte, porque a gente não deixa de querer o que já quis um dia, acho que a gente acumula quereres de um jeito maduro. Eu me sinto mais madura agora e grata também. É por isso que eu digo — venha, vamos dar um jeito de fazer dar certo.

Hoje, na aula de inglês, me apresentei dizendo meu nome e também a minha idade. O professor riu, disse que eu não precisava ter falado quantos anos eu tenho. Respondi que tudo bem, eu não ligo. Eu já nasci há tempo suficiente para saber que ter vivido tudo isso é uma coisa boa.

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