Nova Iorque, outubro de 2016

Não me sobraram palavras bonitas, mesmo que tudo ao redor seja, e não é tristeza, não é desânimo, não é fome, não é porque a moça do post office riu de mim, ou porque o personal trainer saracutiou qualquer coisa quando perguntei se eu iria ganhar o crédito por ter indicado dois amigos. Você me diz que eu realizo um sonho, que sonhos valem todos os sorrisos do mundo e por isso, toda noite, eu treino a abertura correta dos lábios, ensaio não mostrar muitos os dentes e às vezes tento até fazer de um jeito em que a minha boca fique um pouco aberta, como se eu estivesse no meio de uma gargalhada. Eu ainda ando pelas ruas esperando uma coisa que eu não sei o que é e ao mesmo tempo que essa coisa não aparece, tudo acontece e tudo é muito; toda essa novidade me arrebata como se eu estivesse a olhar formigas na calçada da universidade, esperando a carona da minha mãe, sempre nos fundos, como na escola, sempre em um lugar distante dos demais alunos, longe do burburinho, sempre eu e o silêncio do fim de tarde, observando as pessoas indo em direção aos seus carros, como aqui. Todo mundo está indo para algum lugar, de algum lugar, como eu, e essa coisa simples, é dessa coisa banal que eu não sei o que falar. Eu sou uma frase clichê na contracapa do caderno da adolescente sobre sentir demais, sobre um dia conseguir traduzir tudo isso em alguma coisa e enquanto essa coisa não vem, eu começo a entender que essa coisa é a própria vida que eu já estou vivendo andando por essas ruas que mesmo com todo o esforço do mundo ainda não dizem nada de mim. Nem talvez jamais digam. E tudo bem. Ainda são apenas 3 selos preu te mandar aquela carta e 3 é bem menos que todos esses milhares de quilômetros que nos separam.