Arché

eu me peguei inclinada
a acreditar em coisas
que não prescindem
de lógica para funcionar,
como a necessidade
da troca de lençol toda semana
ou o uso de bolsinhas específicas
para guardar carregador de celular
coletor menstrual
e é quando acho que estou
dançando ritmada no salão do self control
centrada em mim mesma
e nas regras que acolhi
que sou surpreendida
por um vídeo de bichinho
onde uma gata prestes a parir
tão calma, tão poderosa, tão dentro de si
me conduz a um insight existencial
e enquanto la reina se lambia e a seus filhotes
eu me voltava para minha própria família
que se entranha em mim
como um espírito que encontra um canal de fala
me monta sem que eu perceba
e eu, possuída, passo a mudar de toalhas toda semana
perdendo e achando objetos
como minha mãe
eu, mediúnica
agora explico tudo ao meu redor
como meu pai
como se eu não tivesse autonomia
como se toda tentativa de ser
fosse apenas uma teimosia retórica
uma narrativa cliché,
um ataque de birra no meio do mercado
já que no final todo animal,
quando lambe seu recém nascido
esparrama sua saliva
como quem recita um feitiço
deixa pequenas marcas invisíveis
como quem tatua
passado, presente e futuro
que invade gerações, transformando herdeiros
em simulacros, cópias, clones teimosos
que acreditam cegamente – essa é a verdadeira religião
que são únicos
que estão invisíveis, que são misteriosos
sem saber que não existe individualidade
nem nunca existirá
que não existe fim nem começo
nem nunca existirá
e que somos todos iguais
aos olhos da gata.

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